quarta-feira, 19 de junho de 2013

Poesia - Transcrições e manuscritos - Manoel Tavares Rodrigues-Leal















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Caderno “Ensaio de Ausência”


Secreto barco o céu da boca
Que emite os sons, os signos antigos,
As claves, o timbre ausente,
Que habitam o manso silêncio, diurno grito.


Extracto de um poema
Lx.13-3-75

A leve luz de Março, navio de efémera fêmea,
Ilumina o ângulo raso do olhar. E o tempo estreme,
De tão possuído, no sangue, exausto, se consome e se perde.


Lx.3-3-74

(Exercício de riso)

Rir-me até morrer no rosto da tarde,
Até romper os ritmos traídos em ausentes vozes.
Rir-me do soalho reticente do sol no olhar,
Da cama onde principio a madrugada, da comida que não como.
Rir-me como lisa sinalização de líricas ruas,
Movendo-me como verme, nasalmente insone.
Rir-me de circulares risos, da cirrose dos sorrisos.

Rir-me até, atento, resvalar para o mapa do riso exemplar,
Até levantar vôo do veludo vermelho do dia,
Até tripular o opulento avião de ávida e árida pele.

Lx.8-10-69

Caderno “Limiar do Desejo”

Como iluminar a alegria
Da página

1984

Caderno “Da Periferia ao Corpo”

Sob que ângulo
De perfeição
Sophia sofre
A erosão das
Navegações


Lx.30/1/84

-


 



Como se insinua o passado,
O que foi.
Agora é uma metáfora
Quando passa
E pede silêncio.

Lx.1984

-

Caderno “Poemana”

(Frag.XV – Sapho)

-

“Devastador
O vento – e a angústia”
Que queima deveras, enquanto
A dor adoece sob o vento
E as vozes dos deuses recentes
São roucas

Lx.17-3-76

-

Caderno “O Umbigo da Beleza”





Detalhe da capa do caderno




Página de rosto com citações de Oscar Wilde e Nietzsche

Detalhes da página de rosto



"É o espectador e não a vida que, na realidade, a arte reflecte."

"O Retrato de Dorian Gray"
"Prefácio"
Oscar Wilde



 Citação de Nietzsche:





Um poema evocando Fernando Pessoa






Sem Pessoa, não era pessoa:
Era a nostalgia de ninguém…
Todo o poema que em mim soa,
Ressoa a Pessoa.
E o gesto de perfeição que me solicita,
Ou é a musa dos antigos inscrita,
Ou é a presença impessoal de Pessoa.
Que, na praia da gente, mítica, repousa.

Lx.29-5-76

-

Abandonado ao marfim do abandono
De mim-mesmo – que tatuagem!
Sem o teu mamilo, que sorvo, que sou eu?
Mero som sonhado, falo e não me ouço.
Há um jardim cuja suspensa folhagem
Me acaricia, e há gente, bulício, ternura, meu deus, uma rapariga rindo.
O poema existe, é vertical dia, um rosto jovem, lindo.

Lx. 29-5-76



 



Dois poemas invocando e evocando D. Sebastião.









O palácio de Cintra*, outrora habitado,
Agora deserto.
Maravilhas dos Reis de Portugal.

Visito-o e comove-me
A longa solidão das salas do Paço.
Heráldicas antigas ouvem-me
E que Rei ausente habita agora o Paço.

Um grito agudo sacode as salas.
Intrigas, vetustas falas...
À noite, D. Sebastião surge com seu perfil perfeito, mas branco e baço.


*Noutra versão: "Sintra"
Lx. 30-5-76

-






Meu alto engano palaciano,
Com gládios vertentes,
Minhas armas, amores amargos...
Oh eu sonho a maresia
Do rescaldo de uma batalha...
Habitei as antigas salas de Cintra,
Ali minha presença despovoou-se.
A gente de Portugal não acredita
Em minha sorte, meu vão desterro.
Sou, agora, El-Rei; o Desejado,
Desembocando em uma manhã de nevoeiro
Deus elegeu-me para este meu novo destino.
Fui um príncipe solitário e sonhador em Cintra.
Ninguém, mas ninguém meu alto amor adivinha,
E minha loucura vos é estrangeira e vizinha...


Lx. 30-5-76
Estes e outros poemas deste caderno são assinados com "Manoel de Souza-Valente"


 


 (Para a Isabel)

Quem meu desejo despia e acordava?
Quem meu coração aceso chamava?
Em o quarto, os lençóis de pólen de um dia,
Os despojos de quem, em o gelado lume, me nomeava...

Quem, no abstracto e quedo jardim do desejo, sabia, sábio, seus labirintos,
Imitava o suor do amor, e sues lábios infinitos e famintos?

Agora, em a memória acerba, meu Deus, a núbil praia dos teus beijos, quentes beijos, principia.
E sua memória se devora, queima. E eu lembro, Isabel, como se iniciava a nossa longa e gelada madrugada.


Lx.30-5-76


Desconheço se o autor opta pelo ponto de interrogação

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