terça-feira, 28 de março de 2017

Um poema inédito (2ª versão), de 1976, evocando o filme “Blow-Up” de Antonioni…



Um poema inédito (2ª versão), de 1976, evocando o filme “Blow-Up” (1966), de Michelangelo Antonioni…

“Blow-Up”

São os jardins primordiais e deslumbrados
E seus mitos efémeros, e as longas áleas nimbadas de buxo.
E os abraços, beijos demorados e quentes e perturbados.
E à noite, ermo o jardim, como se tecem festas, como abuso
Do areal do luar que nos ensina, amantes, amados, seu brilho profuso.
Passeemos, sob a liberdade do luar, em as áleas passeemos,
E inventemos uma nova lua – loucura de quem ama o luar, de novo passeemos.
Que linda loucura, a traçámos, porventura delicados e castos.
E quando abdico de loucura, mergulho em ígneas bocas de tempo e sua usura, saturados.


Manoel Tavares Rodrigues-Leal
Lx. 31-8-76









outras arqueologias... um breve poema inédito a Florbela Espanca... -


Flor (Bela) __ e antiga
Espanca se chama
E ainda múltipla ama…
-
Manoel Tavares Rodrigues-Leal (no manuscrito está um pseudónimo)
Lx. 9/4/88
Fotografia de M.T.R.-Leal, de 7/1971





segunda-feira, 20 de março de 2017

Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro, com a devida vénia

Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro, com a devida vénia

Escreves claro em Cintra.
Onde a melodia de musgo se inscreve
Doce. A chuva arde em a arte da tarde
Ou em a antiga vidraça vizinha…
E em a sensível lembrança de marfim. Trago a espiral da pura Dispersão…
Dirão: talvez abóbada da verve…


Manoel Tavares Rodrigues-Leal

Cintra 13-02-1977
Do caderno “A composição do espaço”
Escrito aos 35 anos…

Pintura de Júlio Pomar:
Lusitania no bairro latino (retratos de Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor e Amadeo de Souza-Cardoso)







Mais um poema inédito com “Stop”, de 1977…

Mais um poema inédito com “Stop”, de 1977…

“Telegrama”    (Para a Ana)

Em a manhã molhada (esparsa e cinzenta chuva…),
Que escamas de cama ausente…
Por isso, envio-te, de amor, um telegrama:
“Amo-te em o impossível amor, Stop. És um espaço volátil,
Stop. Olha Ana ou Daisy. Embarco para os Brazis, Stop.”
E em o objecto inscrito de amar, que nobreza de amor habitável.
Não sou amante mas seu vulto. E descrevo a irreversível curva dos 35 anos ou enganos…

Manoel Tavares Rodrigues-Leal

Lx. ou Cintra 12-14/02/1977
Do caderno “A composição do espaço”
Escrito aos 35 anos…





sexta-feira, 17 de março de 2017

As moscas inconvenientes – um poema inédito - por Manoel Tavares Rodrigues-Leal

As moscas inconvenientes – um poema inédito

as moscas inconvenientes.
do verão implícito.
pousam sobre o ombro.
não são meigas.
infligem um suplício.
ah, as moscas, fúteis e simples de uma mocidade.
moscas prosaicas, arcaicas,
pousando em paisagens estreitas.
e, se abandono o olhar em redor, que cilício de príncipe…
adorno o instante, é o princípio…
 as moscas carnívoras, agora exiladas, são errantes. como dantes…

Manoel Tavares Rodrigues-Leal
Lx. 11-6-76
Talvez do caderno “Apresentação de Paula”




Meu mestre erudito Ricardo Reis - um poema

Meu mestre erudito Ricardo Reis
Quanto de divino vos devo e vós, talvez, me deveis.
Lídia, Cloe e Neera, as mulheres, tuas e minhas, tão míticas, que jamais as teremos.
Tua escrita ática, nunca mundana, em odes, ondas talvez, se perfaz…
O poeta é perene e ímpar, habita a beleza. Banais, felizes, não seremos.
No Olimpo, estão sentados os Deuses solitários. E a lira do Olimpo somente jaz…

Manoel Tavares Rodrigues-Leal

Inédito, do caderno “Apresentação de Paula”

Lx. 12-6-76




segunda-feira, 13 de março de 2017

Não acredito jamais em literatos, literatura, porra - Manoel Tavares Rodrigues-Leal

Não acredito jamais em literatos, literatura, porra
para os poetas que aforram sua meninice e amor intransmissíveis.
Que embarque quem puder em teias adversas de versos! Porra, mil vezes porra para a obra
do empregado em poesia e que se apaixona por volúveis raparigas.
Minha merda mais íntima, que sofras, que sorvas a obra que não é obra, mas cobra, porra.
Apodrece o epitáfio do poeta e, seráfico, aguardo um anjo. Não me abandones na monótona realidade ou no manicómio. Não me deixem! Acordei menino, porra, para aquela antiga fotografia entornada na mesa do tempo. E que o tempo me foda!...




Inédito de Manoel Tavares Rodrigues-Leal – Lx. 19-6-76



À mesa do pensamento, nos ajoelhamos:
As cores são velozes, colidem:
Um espelho fragmentado fecunda sol e sombra.
Eis a ordem do real        por que as coisas, olhadas, nomeamos.

Manoel Tavares Rodrigues-Leal
Do livro Paisagens de Água
Lx.12-7-77


neste poema de 1977 o poeta evoca a sua visita, aos 17 anos, à exposição de Amadeo no Palácio Foz em 1959

Poema publicado na revista Nova Águia nº15, 2015, p. 38.  




pintura de Amadeo de Souza-Cardoso

Em estilo telegráfico, componho este poema - Manoel Tavares Rodrigues-Leal

(Talvez, sem endereço, à São)

Em estilo telegráfico, componho este poema:
Stop. O litoral da escrita é barbárie, stop.,
E beleza, stop. Quem se busca intacto, stop.,
Fica interrompido [“stop”], é efémera metáfora, stop.,
E o […] vulto feminino debruça-se, stop., sobre
O mapa do poema, stop., que é garganta de grito e saque,
Stop., olha amor, olvidar é tarefa difícil e pobre
Stop., quando se inaugura o néon da madrugada e a sua ruga se cospe,
Stop., o poema, humilhado até ao labor das lágrimas, se despede, stop., talvez de esperma, stop.

Lx. 13-2-77
Inédito de Manoel Tavares Rodrigues-Leal, escrito há 40 anos (ver data)






quinta-feira, 9 de março de 2017

Pára-me de Repente o Pensamento - Ângelo de Lima

Pára-me de Repente o Pensamento
Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Pára e fica e demora-se um momento.

Pára e fica na doida correria...
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima, in 'Antologia Poética' 
Poema publicado na revista Orpheu 2






O arcanjo doudo do Rilhafoles: Ângelo de Lima - um poema de Manoel Tavares Rodrigues-Leal

O arcanjo doudo do Rilhafoles: Ângelo de Lima

Arcanjo de um só dia, hoje engravida
De ócio e é visível.
Esquizofrénico, nefelibata,
Desata a loucura
Em pequeninos fragmentos de poeta aristocrata.

Manoel Tavares Rodrigues-Leal

Poema inédito (XXXVII – 23/10/1984), do caderno “O Sul das Maravilhas”







Nyânatiloka Mahâthera, La Palabra del Buda,

“E quando o monge, ao inspirar e expirar, se exercita sentindo gozo, e se exercita sentindo felicidade, e se exercita percebendo a actividade da mente, e se exercita acalmando a actividade da mente, ao exercitar-se deste modo cultiva a contemplação das sensações nas sensações” … hop!
(Nyânatiloka Mahâthera, La Palabra del Buda).


Nyânatiloka Mahâthera, La Palabra del Buda, trad. Amadeo Solé-Leris, Barcelona, Ediciones Indigo, 1991. 





quinta-feira, 2 de março de 2017

Manoel Tavares Rodrigues-Leal - e outro poema a Fernando Pessoa

Manoel Tavares Rodrigues-Leal

Fernando Pessoa

As cartas de amor são ridículas, meu velho Álvaro de Campos,
mas ridículas, dizias, eram aqueles que não escreviam singelas cartas de amor.
De amor maiúsculo pingou um pingo esfíngico e gordo. E se fôssemos, Fernando, ao brandy imaculado da Metafísica, Pessoa sempre impessoal, ubíqua figura.
Era a frescura de risos de raparigas lindas, límpidas, tão íntimas, eram risos
trincados de rosas sem rigor nem alma.
E há Bach, Seixas, Mozart, uma longa lista de sábios em música,
afogados no tempo; mas tu Pessoa és sempre a geométrica pessoa trágica e traída.
Esquecia-me Pessoa: ambos somos ridículos em não escrever cartas ridículas
de amor, pois é manhã marcada, e quem trabalha cedo amanhece
mas com aqueles sorrisos, risos sonâmbulos, risos trincados pelas vidas,
Amargos sorrisos maculados de quem, na pele e no rosto, ínvios caminhos conhece.
Juventude, juventude ressurge, mas jaz a arte de matar-me-te, arte articulada à vida.

Poema inédito de Manoel Tavares Rodrigues-Leal
Lx.
Belas – 26-9-76





Manoel Tavares Rodrigues-Leal - um outro poema a Fernando Pessoa

que eu passe e pasça, simples guardador de rebanhos, como Caeiro o era, raro.
que eu me rebole de exílio de mim-mesmo e não seja poeta aplicado
como a maioria dos nossos nacionais, como Campos queria.
Que furtiva e fugidia Lídia povoe meus sonhos sinistros e que o Rei[“s”?]
não abdique, seja pessoa [“Pessoa”?] e rei, como vós o conheceis.
e que Pessoa fingiu sem alarde e anónimo passou, mais não seja que [“P”?]pessoa em                                                  passagem,
amante do que se esquece, maravilhoso, fascinado por um deus perdido e sua perene imagem…

Manoel Tavares Rodrigues-Leal

Belas – 18-9-76